Lisboa, 8 de March de 2007
Exmo. Sr. Kundera:
Escrevo-lhe esta carta para cumprir o mais inesperado trabalho alguma vez proposto por um dos meus professores. Asseguro-lhe que se terei no futuro alguma coisa a recordar respeitante ao último ano de estada na minha faculdade, serão certas propostas «indecentes» de trabalho, nascidas da alma irreverente de um certo professor. Não sei se o conhece - conhece-lo Kundera ? - afianço-lhe já, que a personalidade em questão conhece-lo bem, e pelo teor do trabalho que nos (turma de Sistémica de 2006/2007) recomendou deve estimá-lo .
Passarei agora ao assunto que nos liga de certa forma, por ser de comum interesse. Recentemente, no âmbito da cadeira de Métodos de Intervenção Sistémicos, tive o prazer de ler o seu Ensaio - A Herança Desacreditada de Cervantes- muitas ideias ficaram a pairar na minha mente, entre elas a possibilidade da morte do Romance.
Tal ideia nunca me passaria pela cabeça, visto que sou uma amante da literatura, em especial de Literatura Romântica Clássica e Moderna, internacional, mas também nacional portuguesa. Além de que, uma das minhas reais paixões é a escrita, prosa, particularmente o conto literário, e aspiro a um domínio da palavra escrita mais elevado, inspirado na essência humana, a escrita de um romance, que me visita nos sonhos. Por isso, enquanto não realizar este meu sonho, e enquanto houver sonhadores como eu, como Kundera, e tantos outros, acredito que o Romance perdurará.
Porque o Romance é a História da Humanidade mais complexa (aborda o ser humano), real (relatividade dos contextos, e o quotidiano tal como é), e sensível (cada personagem é apresentada na sua totalidade, com as suas forças e fraquezas, vitórias e derrotas, crenças e desenganos, amores e desamores, emoções, o mundo interno é exaustivamente explorado). Coisa que as Ciências Sociais e ditas Humanas esqueceram há muito de considerar, pois a tendência funcionalista é tanta, que através dos números, e da racionalidade tentam tudo simplificar. Logo enquanto o Homem existir, existirá o Romance em toda a sua grandeza.
O mundo moderno diz-nos que não há lugar para grandes reflexões e ilusões, «que a pensar morreu um burro...», é preciso evoluir no conhecimento sobre aquilo que causa perturbação na habitação do mundo, então a conquista do poder sobre a natureza é a suma prioridade, com o consequente avanço técnico, logo como diz Erich Fromm e pensa Husserl o “ter” impõe-se ao “ser”, cada vez mais no mundo ocidental actual.
Todo o pensamento e exercício da racionalidade, com o advento do iluminismo, e a ambição da Ciência pela técnica, passou a centrar-se no objecto mundo, e na concepção de que o que é na verdade importante é criar cada vez mais meios de explorar, e dominar, para diminuir as adversidades, tornar a existência na Terra mais segura e previsível. E isto tudo porque o homem tem medo, é um ser vivo essencialmente frágil e receoso, sendo que a forma inconsciente de fugir a essa verdade é ocupar-se loucamente com a providência de tudo, se não tivesse consciência disso, talvez fosse mais feliz e mais livre, pelo menos esta crença consola e justifica a fraqueza, e relutância em se auto-explorar. È mais fácil controlar o que está cá fora, ao alcance dos nossos olhos e mãos, do que o que está cá dentro e dificilmente conseguimos calar e ensurdecer. O Homem tem medo de si próprio, tanto ou mais do que do mundo.
O homem moderno peca, ao analisar o mundo com base em compartimentações, criando áreas especializadas de saber, ou seja, com as várias ciências deixou de observar a realidade circundante como um “todo” integrado, afastando-se do princípio sistémico da Totalidade, e iludindo-se quando pensa que tudo controla, porque como se sabe, o“todo“, é mais do que a soma das partes, neste caso há ainda desconhecimento do mundo, assim como do homem, quando há tantas disciplinas a ele dedicadas (antropologia, psicologia, sociologia, anatomia etc.), mas que ao mesmo tempo cegam-se com as suas verdades e perdem-no de vista.
Ao mesmo tempo que o Homem aspira a hegemonia do mundo, não nota que mais se afasta de si, ingenuamente a sua falta de auto-consciência promovida pelo rodopio do tempo, que ele próprio tornou regra, escancara uma crescente falta de respeito por si, pelo outro e pelo mundo.
A Ciência desumanizou em grande escala o Homem. O Humanismo actualmente só sobrevive na Literatura e em outros géneros de arte. O Romance, através de uma tarefa racional, - ou como se diz em Psicologia, de um processo cognitivo - que é a leitura, permite a entrada directa nas profundezas de outros mundos humanos, chegar ao que há de mais íntimo no outro (personagem e quem sabe ao narrador?!), à sua alma e coração, ao seus pensamentos e discurso interno; à sua própria leitura do mundo, ao que nem a Psicanálise com os seus métodos conseguiu aceder, e Wundt com a Introspecção também não . Quem lê, apreende uma nova realidade, mesmo que inconscientemente, ganha um a bagagem superior perante a vida, incrementa o seu “ser”.
Ao mesmo tempo que o Homem aspira a hegemonia do mundo, não nota que mais se afasta de si, ingenuamente a sua falta de auto-consciência promovida pelo rodopio do tempo, que ele próprio tornou regra, escancara uma crescente falta de respeito por si, pelo outro e pelo mundo.
A Ciência desumanizou em grande escala o Homem. O Humanismo actualmente só sobrevive na Literatura e em outros géneros de arte. O Romance, através de uma tarefa racional, - ou como se diz em Psicologia, de um processo cognitivo - que é a leitura, permite a entrada directa nas profundezas de outros mundos humanos, chegar ao que há de mais íntimo no outro (personagem e quem sabe ao narrador?!), à sua alma e coração, ao seus pensamentos e discurso interno; à sua própria leitura do mundo, ao que nem a Psicanálise com os seus métodos conseguiu aceder, e Wundt com a Introspecção também não . Quem lê, apreende uma nova realidade, mesmo que inconscientemente, ganha um a bagagem superior perante a vida, incrementa o seu “ser”.
A hierarquia actual de valores parece-me invertida, pois, para o bem da Humanidade, avança-se a cada segundo no conhecimento científico, gasta-se energia e dinheiro neste culto da técnica e do conhecimento. Mas na realidade, os valores que mantêm as instituições como a ONU elevadas, do género liberdade, justiça, paz e igualdade de oportunidades e o «não à fome no mundo», parecem esquecidos numa hipocrisia desavergonhada, e tudo o que está relacionado com as necessidades básicas do Homem, contínua de forma cruel e irracional igual, ou pior, ainda existe um 3º Mundo, para e porquê? Eu tal como Kundera, bem sei a resposta, mas não vou estender-me mais. Porque, já vou perdendo o leme.
È difícil olhar para além do «rótulo», pois é mais simples cognitivamente lidar com as pessoas segundo o que a sociedade prescreveu como correcto e errado, bom e mau. Infelizmente, na actualidade não há tempo para a singularidade, a diplomacia veio a substituir qualquer tipo de empatia e compreensão genuína. O momento exige ao homem moderno, que conduza as suas relações quotidianas de modo superficial, procurando ser económico e eficaz. Quanto mais tecnologia e técnica de vanguarda temos, menos tempo temos para viver, o “eu” o “nós” e o “outro”. O Homem das cavernas era mais feliz, pois tinha menos meios, infelizmente o caminho que o homem leva torna-o passivo e cativo do material.
Tudo isto para simplesmente lhe dizer que a verdade sobre a «morte do Romance» é discutível, e apesar de todas as contingências do meio, creio que em cada geração haverá homens inspirados, e criadores que renovarão esta arte. Mas neste ponto, havemos de convir que não se pode lutar contra o tempo, um poeta português, para mim sábio disse um dia «...mudam-se os tempos/ mudam-se as vontades, muda-se o ser/ mudança a confiança, todo o mundo é composto por mudança...». Aqui está a razão, ou uma face dela: embora o romance sofra uma crise, originada pelo espírito do tempo, não devemos baixar a cabeça e fechar os olhos para a realidade, isto é, não aceitar resignadamente a extinção deste estilo, que é mais que um estilo pois perdura no tempo.
O progresso na História do Romance pode sempre acontecer, porque quem faz o espírito do tempo é o Homem, e portanto se acreditarmos que este último é uma fonte inesgotável de questões, dada a sua natureza complexa, como o próprio Kundera defende, o que se passa é apenas uma crise e não uma inevitável morte. Pois há mais possibilidades de abordagem do comportamento humano do que autores, mais entendimentos do que entendidos, e há quem ainda se preocupe com o outro, e com estas questões, se não o que estava eu aqui a fazer? Se não a reflectir e a criar a minha própria opinião . Já me tocou com a sua mensagem, a mim e a milhões que leram esta obra sua! Quantos já terá inspirado e desafiado a cruzar uma batalha contra a evidência da decadência do Romance? Muitos, acredite, muitos!
Por isso, ainda há neste mundo, lugar para o Romance: pois a criatividade, a subjectividade, idiossincrasias e o espírito de aventura não cessam! Há sempre um louco que escapa à moda. Assim, enquanto não se esgotar o génio Humano haverá Romance.
E isto porque acredito no “ser” Homem.
Com os meus melhores cumprimentos,
Cátia Andreia Nunes
Com os meus melhores cumprimentos,
Cátia Andreia Nunes